Cobras, lagartos e as enigmáticas anfisbenas compartilham uma característica fascinante: ao longo de milhões de anos de evolução, muitos deles perderam os membros e adotaram o corpo alongado típico das serpentes. Essa transformação ocorreu de forma independente pelo menos 26 vezes na história dos Squamata — o grupo que reúne serpentes, lagartos e anfisbenas — o que a torna um dos exemplos mais notáveis de evolução convergente entre vertebrados.
Por muito tempo, cientistas assumiram que a ausência de pernas seria o principal fator a moldar a biologia dessas criaturas. Afinal, mover-se sem membros exige estratégias de locomoção muito diferentes, o que inevitavelmente altera os gastos de energia do organismo. Mas um novo estudo, publicado na revista Genetics and Molecular Biology, propõe uma reviravolta nessa visão: pode ser o hábito de viver enterrado, e não a ausência de pernas em si, o principal impulsionador das mudanças no DNA mitocondrial desses animais.
As mitocôndrias no centro da investigação
As mitocôndrias são as “usinas de energia” das células. Seus genes codificam proteínas essenciais para a produção de ATP, a molécula que sustenta praticamente toda atividade celular. Justamente por isso, qualquer mudança nos requisitos energéticos de um animal — como as decorrentes de uma nova forma de locomoção — pode deixar marcas detectáveis no genoma mitocondrial.
Para investigar essa questão, os pesquisadores sequenciaram o genoma mitocondrial completo da Amphisbaena alba, uma anfisbena brasileira que é ao mesmo tempo sem pernas e fossorial (ou seja, vive escavando túneis no solo). Com 16.800 pares de bases, o genoma contém 13 genes codificadores de proteínas, 22 RNAs transportadores, dois RNAs ribossomais e uma região de controle — uma arquitetura típica dos vertebrados.
Fossorialidade vence a disputa
Usando análises estatísticas e modelos evolutivos sofisticados, a equipe comparou as taxas de seleção nos genes mitocondriais de espécies com e sem pernas, e de espécies fossoriais e não fossoriais, de forma separada. O resultado foi claro: as espécies que vivem sob a terra apresentaram alterações significativas nas pressões de seleção em um número bem maior de genes mitocondriais do que as espécies simplesmente sem pernas.
Em termos práticos, espécies fossoriais mostraram seleção purificadora mais intensa — o que indica que seus genes mitocondriais estão sob forte pressão para manter funções específicas, provavelmente relacionadas às demandas energéticas da vida subterrânea. Já as espécies sem pernas, de modo geral, apresentaram sinais de seleção mais relaxada nesses mesmos genes.
Por que isso importa?
O estudo reforça que a ecologia de um animal — onde e como ele vive — pode ser tão ou mais importante do que suas características morfológicas para entender a evolução molecular. Escavar e se mover em ambientes confinados e de baixo oxigênio impõe restrições energéticas únicas, que acabam esculpindo o próprio DNA das mitocôndrias ao longo das gerações.
Mais do que responder uma pergunta antiga, a pesquisa abre caminho para entender como diferentes pressões ambientais deixam impressões moleculares profundas na história evolutiva dos vertebrados.
Referência: Anieli Guirro Pereira,Vinicius Anelli, Rubens Pasa, Karine Frehner Kavalco, Fabiano Bezerra Menegidio and Tiana Kohlsdorf. Evolutionary patterns in squamate mitogenomes: Are selective regimes associated with fossoriality and limblessness? Genetics and Molecular Biology, 2026.
https://doi.org/10.1590/1678-4685-GMB-2025-0226
Conteúdo produzido com uso de I.A. – Scispace
Curadoria: Kavalco, K.F.